Por Jonathan Hutchins
Como diz o ditado, “os tiranos são os primeiros escravos da tirania”. E como é incrível que eles oprimam querendo silenciar as vozes da História. Sob o pretexto do “Revisionismo” fala-se que ambos personagens e textos de tal evento são fábulas criados e exagerados em favor de uma grande conspiração política. Sem dúvida existem muitas mentiras históricas que tem que passar pela peneira do tempo. E, normalmente, a verdadeira história é analisada na qualidade do seu escrito. Além de, segundo a multidão das suas testemunhas oculares, e sua transparência sobre as “fraquezas” das pessoas que ela descreva. Tudo isso é suficiente para revelar que temos em nossas próprias mãos pérolas preciosas. Ademais, fábulas não têm o poder de tocar a alma humana em todas as culturas. Mentiras não costumam ser usadas para inspirar milhares de pensadores, obras de arte e museus no mundo inteiro. Textos sem valor não são traduzidos e lidos em 60 idiomas, e se tornam por fim um dos livros mais lidos ao lado da próprio Bíblia. Tal livro que tem passado pela prova do tempo e do vento é O Diário de Anne Frank, o documentário mais dramático da Segunda Guerra mundial e a pérola do holocausto dos judeus.
Em 1940, os alemães invadiram a Holanda, onde Anne Frank, menina de onze anos, inocente e cheia do fôlego da vida, morava com seus pais. Anne veio de uma família de comerciantes judeus da cidade de Amsterdã. Logo pela metade daquele ano, o regime antissemita nazista começaria a controlar e perseguir os judeus. Colocaram-nos em escolas separadas, identificando-os e inquietando qualquer tipo de liberdade que eles tinham. Com o tempo, as coisas ficaram muito perigosas e Otto Frank, pai de Anne, tentou imigrar para os Estados Unidos, sem sucesso. Por fim, eles fugiram e esconderam-se junto com algumas outras famílias no famoso “anexo secreto” por dois anos e meio. No décimo terceiro aniversário de Anne, o seu pai a deu um presente muito especial. Anne sonhava há tempos com um diário para escrever os seus pensamentos. Ao receber, ela escreveu na primeira linha: “Espero poder confiar inteiramente em você, como jamais confiei em alguém até hoje, e espero que você venha a ser um grande apoio e um grande conforto para mim” (12 de junho de 1942). Nos dias seguintes era assim mesmo que Anne derramava a sua alma através de uma caneta até o dia 1 de Agosto de 1944, quando a palavra escrita parou e os nazistas invadiram o seu esconderijo, levando todos ao campo de concentração. Até o fim da guerra, que durou seis anos, seis milhões de judeus morreriam; ou seja, 2.279 pessoas por dia. No dia 16 de março de 1945, às 10h15min de manhã, Anne também faleceu no campo de concentração Bergen-Belson, poucos meses antes da fim da guerra. O diário de Anne Frank pinta um quadro bem transparente daqueles anos da sua vida curta. Um quadro que tem tocado milhares que tiveram a coragem de olhar para a sua trajetória. Apesar de sua história ser muito triste, podemos minar muitos tesouros e esperanças humanas da vida de uma menina. Um desses tesouros é o fato de que leitores são líderes.
O diário de Anne revela que jovens são capacitados a escrever sobre assuntos bem profundos. Essa menina evidentemente poderia opinar sobre temas como política, economia, ideias sobre capitalismo, nazismo, guerra, etc. Ela refletia nas razões do seu próprio sofrimento e escreveu: “O homem nasce com o instinto da destruição, do massacre, da fúria, e enquanto toda a Humanidade não sofrer uma metamorfose total, haverá sempre guerras”. Ela tinha um conhecimento que nossos professores e governantes de hoje nem ao menos processam nas suas mentes. Alguns, ao lerem, provavelmente teriam que usar dicionário o até fazer uma busca no Google para entender as palavras de Anne. Os textos de Anne têm reflexões profundas sobre amor, casamento, conflitos, relacionamentos, a natureza do homem, as suas falhas, as dúvidas sobre sua própria religião e história, e a lista continua. Profundidade humana que poucos adultos possuem hoje em dia. Ademais, Anne lutava contra a depressão devido ao fato de estar presa numa casa por dois anos. Ainda assim, ela é um exemplo de como ser corajoso e não ceder às suas emoções em meio aos muitos conflitos com sua alma, sua família e a crueldade de Hitler.. Se Anne Frank, na sua fragilidade, podia vencer, a mensagem é que também temos esperança!
É importante notar que Anne não era um gênio. A sua vida toca a humanidade porque ela era uma menina comum. As paredes do quarto dela eram cheias das fotos dos seus atores favoritos. Ela gostava de opinar e às vezes a sua língua lhe causava problemas com as pessoas mais íntimas a ela. Ela tinha problemas com a sua mãe, que era um pouquinho dura com ela. Ela sonhava em ter um namorado como qualquer menina de hoje. A humanidade de Anne levou o autor famoso soviético Ilya Ehrenburg a escrever sobre Anne: “Uma voz fala por seis milhões, a voz, não de um sábio ou poeta, mas de uma menina comum”. Mas, o que era diferente nessa menina comum que podemos salientar? Anne Frank foi ensinada a exercitar sua mente na disciplina da leitura e escritura. O privilégio e a responsabilidade de todos os seres humanos em cada sociedade é aprender a ler e escrever. E os leitores são os líderes!
O sistema da educação e valores familiares nos dias de Anne devem ser seguidos em nossa geração. Temos que nos voltar para essa realidade perdida na antiguidade, da importância da leitura, e leitura bem extensa. A ciência cognitiva de Jean Jacques Rousseau era a tirania sutil que ensina que o que é mais importante é aprender como pensar, e não conhecer tanta informação. Essa filosofia não funciona na realidade. É impossível fazer pensamento crítico sem todos os dados. Erramos também quando pensamos que as escola têm a responsabilidade de ensinar as nossas crianças a pensar. Isso também não funciona na realidade. Claro que Anne frequentava escolas boas, mas o segredo da cultura naquela época estava com os pais. Otto Frank tinha uma biblioteca em casa e estimulava a sua família a ler e pensar. A história dos judeus nos mostra que quando eles não tinham nada, pelo menos tinham livros, e por isso sempre se tornaram os professores da antiguidade, fundando escolas e faculdades em todo o mundo. Talvez por isso Hitler quisesse tanto matá-los, porque ele mesmo sabia que leitores são líderes. Aqueles que não leram e não conhecem tanto as maldades quanto as maravilhas da História, vão sempre repeti-las, especialmente as maldades. Como um sábio rei judeu escreveu: “Não há nada novo debaixo do sol”. Ademais, a preservação da cultura da liberdade sempre depende de um profundo conhecimento da História que tem que ser passado de geração a geração. Se alguma sociedade esquece e evita ensinar sua História, logo será dominada por um tirano que tirará todas as suas liberdades, até o seu direito de ler e escrever a verdade. A democracia e a liberdade somente funcionam num ambiente de leitores que são seus líderes. A disciplina de leitura diária fez de Anne Frank uma grande líder até hoje. E você: como é a sua leitura e liderança?
Considere esses 7 benefícios que ganhamos ao ler:
- A leitura desenvolve a mente.
- A leitura desenvolve a disciplina.
- A leitura aperfeiçoa o caráter, levando a pessoa à introspecção e melhoramento.
- A leitura traz fé e edificação espiritual.
- A leitura opera, pelo desafio, uma atitude de ação e mentalidade de missão e propósito.
- A leitura preserva o conceito da liberdade humana.
- A leitura torna-nos líderes. Com uma capacidade argumentar de pensar, analisar, criticar, melhorar e influenciar.
Duas partes do diário de Anne que mostra a sua disciplina de leitura:
“Talvez te pareça fantástico mas estou tão ocupada neste momento que o tempo não me chega para levar a cabo os meus trabalhos. Queres saber o que ainda tenho a fazer? Aí vai: até amanhã preciso de acabar a leitura da primeira parte da biografia de Galileu, pois o livro tem de ser entregue na biblioteca. Comecei ontem, mas hei-de lê-lo todo. Na próxima semana quero ler: “Palestina, uma encruzilhada” e o segundo volume do “Galileu”. Ontem acabei a primeira parte da biografia do Carlos V e agora torna-se urgente pôr ordem nos meus apontamentos e nas datas genealógicas. Tirei, de vários livros, três páginas cheias de palavras estrangeiras que quero decorar. A minha coleção de “estrelas” de cinema está numa desordem aflitiva e tem de ser arranjada. Mas só isto me levaria alguns dias e como o Professor Anne, conforme já foi dito, está a sufocar com trabalho, o caos daquela coleção tem de ser fatalmente abandonado à sua sorte por mais algum tempo. Teseu, Édipo, Peleu, Orfeu, Jasão e Hércules estão à minha espera. Os seus feitos históricos confundem-se ainda na minha cabeça como uma trama de fios embrulhados e multicolores. Também Byron e Fídias precisam de ser estudados para eu não perder a ligação. O mesmo acontece com as guerras dos sete e dos nove anos; ando a misturar tudo. Mas que queres que faça quando se tem uma memória tão fraca como a minha? E agora podes imaginar como serei aos oitenta anos! É verdade: ia-me esquecendo da bíblia. Espero que não demorarei muito a chegar à história da Susana no banho. E que querem dizer com os crimes de Sodoma e Gomorra? Ai! tanta coisa por perguntar, tanta coisa por aprender!” (12 de Maio de 1944)
“Leio agora O Imperador Carlos Quinto, escrito por um professor de Guingen que trabalhou quarenta anos nesta obra. Em cinco dias li cinquenta páginas; é difícil ler-se mais, de um livro assim, e ele tem quinhentas e noventa e oito páginas. Agora podes fazer as contas ao tempo que levará a leitura e, depois, falta ainda a segunda parte! Mas… é deveras interessante! O que uma rapariga trabalha normalmente na escola não se pode comparar à tarefa que eu cumpro. Hoje traduzi, do holandês para o inglês, um pedaço da última batalha de Nelson. Depois estudei A guerra Nórdica (1700-1721), Pedro o Grande, Carlos XII, Augusto o Forte, Stanislau Seczinsky, Mazeppa, Brandemburgo, Pomerânia e Dinamarca – com todos os dados correspondentes. Depois li sobre o Brasil: o tabaco da Baía, a abundância de café, o milhão e meio de habitantes do Rio de Janeiro, Pernambuco e São Paulo, o rio Amazonas. Fiquei a saber coisas dos negros, dos brancos, das mulheres, dos mulatos, dos mestiços; fiquei também a saber que ainda lá vivem cinquenta por cento de analfabetos e que há malária. Como ainda me sobrava um pouco de tempo, peguei na minha árvore genealógica: Jan o velho, Guilherme Luís, Ernst Casimir, Henrique CasimirI, até à pequena Margriet Franciska que nasceu em 1929 em Otava. Meio-dia: continuo a estudar, no sótão, o programa sobre as catedrais… uff! até à uma hora… às duas horas, a pobre rapariga (hum, hum!) já estava de novo a estudar. Macacos com focinho achatado e macacos com focinho aguçado. Kitty, és capaz de me dizer quantos dedos no pé tem o hipopótamo? Depois seguiu-se a bíblia, a arca de Noé, Sem, Cam e Jafé; depois Carlos V. Por fim: inglês com o Peter: O Coronel de Thackeray, vocábulos franceses, e comparar o Mississipi ao Missouri. Chega por hoje.” (27 de abril 1944)